Capítulo 1
Eu nasci duas vezes antes de aprender a andar.
A primeira, no dia 9 de abril de 1976, num hospital de Jundiaí que minha mãe escolheu — não porque morávamos lá, mas porque era o lugar que aceitava receber uma menina de dezessete anos para ter um bebê. A gente morava no interior, mudava de cidade como quem muda de roupa: Várzea Paulista, Campo Limpo Paulista, os nomes se confundem na minha memória porque nenhum deles chegou a virar casa.
A segunda vez foi antes dessa. E é dela que eu preciso te contar primeiro, porque é ela que abre tudo.
Meu pai levou minha mãe duas vezes para abortar. Ela tinha dezessete anos e ele achava que uma criança só ia atrapalhar a vida dele. Nas duas vezes o médico se recusou. Não por bondade, não por fé, mas por uma tecnicidade fria: minha mãe era menor de idade, e ele não podia fazer o aborto. Pouco tempo antes do meu pai partir, em um momento de embriaguez, ele me pediu perdão e, pela primeira vez, confessou ter levado minha mãe para uma tentativa de aborto. Depois disso, foram anos para processar essa informação. Antes de eu ter um rosto, antes de eu ter um nome, alguém já tinha decidido que eu não deveria existir. E eu existi mesmo assim.
Guarde essa frase, porque ela vai voltar. A vida inteira, pessoas iam decidir que eu não deveria estar de pé. E eu continuo de pé, para a glória de Deus.
Meu pai era um homem de coração gigante e mãos erradas. Eu preciso dizer as duas coisas na mesma frase, porque as duas são verdade e nenhuma cancela a outra. Ele trabalhava na noite, na Rua Augusta, em São Paulo. Começou como gerente e terminou dono de uma casa noturna que, se eu for honesta com você, e eu prometo ser do começo ao fim, era um prostíbulo. A gente morava em cima dele. Eu fazia o meu prezinho ali perto, na região da Consolação/Praça Roosevelt, e voltava para um apartamento que ficava exatamente acima do lugar onde meu pai ganhava a vida.
Aos seis, sete anos, eu não entendia o que era aquilo, apenas sentia. Tem uma diferença. Quando eu passava pela porta, subia um cheiro de cigarro velho, de bebida derramada, de alguma coisa que a minha cabeça de criança não sabia nomear, mas o meu corpo já sabia recusar. Na escola, quando as outras crianças falavam da profissão dos pais, eu aprendi a mentir cedo. “O que seu pai faz, Viviane?” “Trabalha à noite.” “De quê?” “Segurança”. “Taxista”. Eu escolhia uma resposta diferente a cada dia, testando qual doía menos.
Foi assim que eu cresci depressa. Não porque eu quisesse, mas porque a casa não me deixou escolher. E mesmo assim, sabe de uma coisa? Eu era uma criança alegre. Isso é o mais estranho de tudo, e eu faço questão de te contar, porque a dor não apagou a menina. Eu andava de patins na praça, eu ria à toa, eu inventava mundos inteiros na minha cabeça do jeito que só criança sabe inventar. Por dentro da casa que desmoronava, existia uma menina que ainda acreditava que a vida podia ser bonita. Ela só não sabia ainda o preço que ia pagar por essa fé.
O sonho chegou num domingo.
Eu tinha sete anos quando fui ao programa do Sílvio Santos, o Domingo no Parque. Fui dançar, junto com outras crianças, sob aquelas luzes que eu nunca tinha visto de perto. E aconteceu uma coisa comigo ali que eu levei décadas para entender. Não foi o palco que me encantou. Foi o que eu imaginei que o palco podia fazer. Eu olhei para aquela luz toda e pensei, com a lógica exata de uma menina de sete anos que já tinha visto demais: se eu ficar famosa, eu vou poder tirar a minha família daqui.
Era só isso. Não era vaidade — não no começo. Era uma menina fazendo a única conta que sabia fazer. Fama = dinheiro. Dinheiro = salvar todo mundo. E eu me agarrei a essa conta como quem se agarra a uma boia, porque era a única coisa flutuando por perto.
O problema é que eu não sabia — e como eu ia saber? — que aquela boia me levaria exatamente para o fundo. Que a fome de brilhar me arrastaria de Peruíbe até Nagoya; de uma piscina na Barra da Tijuca até uma capa de revista masculina; de um sonho de criança até lugares de onde muita gente não volta.
Mas isso é história para os próximos capítulos. Por enquanto, eu preciso que você segure só uma imagem: uma menina de sete anos, dançando sob os holofotes do Silvio Santos, fazendo uma promessa silenciosa que ela não tinha como cumprir e nem como quebrar.
Ela achava que estava sonhando com a fama. Na verdade, ela estava começando a se perder.
Fim do capítulo 1